16/09/2009
Por Mauro Santayana
Privatizada em 1997 – no delírio do neoliberalismo globalizador – a France Telecom dispensou, desde então, 70 mil empregados. As empresas estatais francesas foram concebidas para servir ao desenvolvimento econômico – mas também social. Elas atraíam os jovens técnicos e administradores, entre outras vantagens, por assegurar uma carreira segura, em troca da dedicação ao trabalho, e o orgulho de que seu patrão era o povo.
Nos últimos 18 meses, 23 trabalhadores da empresa se mataram – cinco vezes mais do que o índice de suicídios na população francesa em geral – além de número não revelado de tentativas frustradas. Segundo denúncias do sindicato da categoria e dos próprios trabalhadores – entre eles os que exercem funções gerenciais – a política da empresa é a de buscar o lucro a qualquer custo (4 bilhões de euros no último ano). O pessoal é mantido sob tensão permanente, pressionados a deixar o emprego. Os trabalhadores só têm um minuto para ir ao banheiro, obrigados a justificar-se por escrito, se excedem esse tempo.
O instrumento mais usado para provocar a angústia dos assalariados é a transferência de posto de trabalho, de um dia para outro. Os chefes intermediários também são submetidos à mesma prática, exigida pela “reengenharia empresarial” e conhecida pela expressão inglesa Time to move: raramente permanecem no posto por mais de um semestre. É necessário cortar o relacionamento continuado, ou de amizade, entre chefes e subordinados, a fim de que não intercedam em favor daqueles escolhidos para serem demitidos, rebaixados de cargo ou transferidos. Engenheiros são constrangidos a trabalhar no departamento comercial, e administradores forçados a cuidar de equipes técnicas.
Essas pressões se repetem, em todas as empresas que foram estatais, e na maioria das que sempre foram privadas. É o fundamentalismo mercantil, que a crise de Wall Street não foi capaz de abalar. Os nazistas criavam programas de lazer e cultura, esporte e turismo, para seus nacionais, a fim de compensar o esforço exaustivo exigido pela economia de guerra, imposta a partir da ascensão de Hitler. A “alegria pelo trabalho” era um embuste, mas muito mais inteligente do que a pressão constante a que estão submetidos os trabalhadores sob a ditadura atual do mercado.
Anteontem, o presidente Nicolas Sarkozy recebeu os economistas Joseph Stiglitz (americano e Prêmio Nobel), Amartya Sen (indiano) e o francês Jean-Paul Fitoussi, dirigentes da comissão criada pelo governo francês a fim de buscar nova forma de medir o desenvolvimento econômico que não seja a do PIB convencional. A comissão recomenda que o desenvolvimento se meça pelo bem-estar das pessoas, pelo que elas recebem da economia em geral, no interior de seus lares, no usufruto da vida; não pelo balanço das empresas, nem pelo aumento nacional de produtividade.
Sarkozy, que não pode ser considerado homem de esquerda, nem filantropo fanático, tocou no ponto certo, ao dirigir-se aos especialistas. “No mundo inteiro”, disse, “os cidadãos pensam que lhes mentem, que os números são falsos, e, pior, manipulados. Nada pode ser mais danoso para a democracia”. A democracia vai além da liberdade de expressão e de eleger os governantes. Ela aspira à igualdade de todos os cidadãos, à isonomia, para voltar ao grego, enfim, ao bem comum, que é o objetivo da República.
O presidente Sarkozy, amparado na circunstância de que o Estado manteve mais de um quarto do capital da France Telecom, ao privatizá-la, determinou a seu ministro do Trabalho que interviesse no assunto. É bom sinal, como é bom sinal a insistência de Barack Obama em colocar rédeas na avidez dos banqueiros, limitando-lhes os bônus milionários.
Os ricos e poderosos sempre dominaram os Estados, ao constituir os governos e controlar a burocracia, mas jamais foram tão insensatos como em nosso tempo. Eles estão – e isso se vê claramente no caso francês – levando os trabalhadores a preferir a morte à humilhação, ao opróbrio.
Seria importante realizar uma investigação entre as antigas empresas estatais (principalmente as de telefonia), hoje privatizadas e controladas por brasileiros ou pelos estrangeiros. Estariam elas tratando os empregados brasileiros de forma melhor do que a France Telecom trata seus empregados franceses?
Segundo a visão sempre lúcida de Hannah Arendt, a escravidão não acabou de todo; mudou apenas de modo.
setembro 24, 2009 às 4:46 am |
MÔNICA FORONI Disse: O seu comentário está aguardando moderação.
Setembro 21, 2009 às 11:46 pm | Responder
Já havia tomado ciência há algumas semanas a respeito do que vem ocorrendo na França e me preocupa pensar que este seja um fenômeno mundial. Outro dia, assistindo a uma reportagem feita aqui no Brasil, me deparei com situação igual ou semelhante (só quem as vive poderá dizer). Tratava-se de um funcionário, não me lembro de que empresa, que chorava compulsivamente, por ter sido obrigado a permanecer durante todo o expediente, sentado em uma lixeira, num canto da empresa. Em outra empresa, as trabalhadoras não podiam sair da frente do computador, nem para ir ao banheiro. Inclusive, quatro delas estavam grávidas. Como se vê, a escravidão anda à solta também por aqui.